quinta-feira, 24 de julho de 2008
De quem parte para quem fica.
domingo, 13 de julho de 2008
O Confidente (ou simples objeto observador).

Olhos fundos e marcas de lençol nas bochechas, ela aparece, toda manhã, levemente mal humorada e sonolenta, realizando movimentos quase que em câmera lenta, entre dois ou três lamentos, dois ou três bocejos.Se dirige ao sanitário, mais por impulso, menos por coragem, e se queda ali, a mão esquerda apoiando a testa, pensando se é necessário um banho ou não, planejando o dia, pensando nele, como em cada minuto de cada novo dia: pensando nele. Ela não me disse mais nada sobre, mas eu conheço bem a expressão do seu rosto ao pensar nele.Talvez agora esteja planeando o percurso até a faculdade e vendo todas as possibilidades de cruzar com ele, mas não, ele dorme até mais tarde nas sexta, e assim ela decide prontamente. - Não preciso de banho. Levanta brusca do acento, lava brusca a cara, escova bruscamente os dentes, troca bruscamente a roupa, apaga brusca a luz,bate brusca a porta e sai, brusca.Não posso vê-la na rua, mas a imagino descomposta, cara de sono, bocejos. O andar torto, desengonçado, apressado e brusco.E durante a aula, provavelmente distraída e ainda sonolenta ela pensará no pênis do professor, pequeno e murcho, sem volume algum sob a calça, diferente do fulano ao lado, altivo e imponente, pernas abertas, grande proeminência sob o zíper. E se imaginou na cama com o professor, na cama com o fulano, na cama com os dois. Depois se deu conta de sua abstinência, que claro, faz ela passar horas pensando coisas assim. Espantou-as da cabeça, tentou em vão prestar atenção na aula do professor-pênis-murcho. E depois de trinta segundos ela pensava no pênis dele, e gostou de imaginá-lo também altivo e imponente e não quis espantar aquilo da cabeça. Ao meio dia ela se despe para mim, mostrando os fartos seios que ela tanto se orgulha, o abdome globoso na parte inferior que ela tanto odeia, se esquia vira de lado, vira de frente, vira de costas. Mãos na cintura, pés na ponta dos dedos, ela me mostra as nádegas também fartas porém flácidas e repete mais uma vez para si mesma que precisa urgentemente recorrer a uma academia. E pensou nele, saciando a fome naquelas carnes fartas e flácidas. Ducha rápida só para aliviar os calores, o do verão e o que exala de algum lugar profundo do corpo dela, muito mais difícil de ser aliviado. Aquele conhecido calor que faz ela pensar em outras coisas, ao invés da disciplina ministrada. Escova os dentes, agora não brusca, mas meticulosa, um a um, incisivos, caninos, molares e pré-molares. Senta na pia de pernas abertas para mim, examina o clítoris, o bem mais precioso dela e de toda mulher, suponho eu. E ao mexer nos grandes e pequenos lábios, novamente pensou nele. Rói e pinta as unhas em seguida, vermelho vivo, vermelho sangue. A casa vazia, ela desabafa. Se assume desacreditada em relação a ele, e auto-confiante em relação aos demais, e mostra-se indigna com a sua postura para os demais, quando os demais, não importam, é nele, é dele, é pra ele cada passo, cada movimento, cada nova fragância, cada roupa, cada peça íntima, cada gesto e cada rima. Anoitece. Banho, hidratante e óleos, desodorantes e perfumes, vestido, calcinha, sutiã não, unhas dos pés escarlates, vermelhas-vivas no salto 15, e ela tentou não pensar nele, passando a língua nelas e a deslizando devagar para lamber a parte interna das cochas. Olha bem pra mim e repete: eu sou linda,eu sou linda,eu sou linda. Ensaia beijos, olhares e poses, passa as mãos no cabelo, pega na bolsa o pouco de dinheiro que uma mulher como ela precisa para sair, embriagar-se, divertir e divertir-se, mãos no cabelo. Meia noite, acusa o relógio, ela espera uma nova proposta tocar a campainha e levá-la a bares,shows e talvez mais tarde cama redonda, espelho no teto. Blim-blom, um último olhar,o mais fatal. Desliga elegante a luz, fecha elegante a porta, e me deixa na escuridão, com os meus míseros um metro e meio de largura por dois de altura: pobre espelho confidente.
"Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim. Por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema, um botequim (...) Mas na manhã seguinte, nem conta até vinte, se afasta de mim, pois já não vales nada, és página virada, descartada do meu folhetim."
quarta-feira, 14 de maio de 2008
O quereres.

sexta-feira, 14 de março de 2008
Mesa pra um,não fumante.
Mesa pra um,não fumante.O garçom fez a cara mais feia para a minha frase.Será que estar sozinho era ofensivo emCuritiba?Será que não fumar era ofensivo em Curitiba?Depois descobri que não falar "curitibanês" era ofensivo emCuritiba.E só depois de muito tempo fui descobrir que os curitibanos gostam de olhar feio mesmo,não importa o quevocê fale,é o jeito blasé deles. Devorei o sushi sem olhar pro lado.Na verdade sem olhar pra frente,pra trás,pra lugar nenhum.Aquele restaurante todo parecia ter saído de um final brega de novela.Todo mundo tinha se dado bem.Todo mundo se amava.Menos eu,menos eu.E eu?
E os primeiros dias se arrastaram assim.Até que lá pelo quarto dia resolvi dar uma volta pelo centro.Não tive paciência pra rodar aquilo tudo,fui nas lojas que eu achava que fossem as melhores,alguns shoppings,etc.Fiquei numa alegria só quando me dei conta que finalmente estava no Jardim Botânico,cansadão,comendo um sanduíche enorme de queijo,sentado em um banco,no meio de todo aquele verde.Sei lá porque comecei a rir sozinho da minha falta de glamour e me senti extremamente feliz.
Saindo de lá parei num desses cafés que você jura que só quem é muito intelectual e especial pode entrar.Tomando ocafé expresso mais incrível da minha vida e o pão de queijo mais incrível da minha vida,só lamentei a falta de uma coisa.Não,não foi de nenhuma companhia ao meu lado.Foi de não estar usando meu MP4.Curitiba toda tinha fones nos ouvidos e definitivamente eu tinha que usar o meu.Paguei a conta do café e comecei minha perigrinação de volta para casa,na intenção de baixar músicas,não importava quais fossem.
No outro dia saí de casa sem nenhuma angústia no coração e na melhor companhia de um MP4.Era com ele,inclusive,que eu tinha um jantar marcado para aquela noite.Tinha tomado um banho demorado,vestido meu casaco e então saí em busca de um lugar charmoso e divertido para jantar.Tinha demorado quatro longos dias para eu descobrir como era incrível sair pelas ruas sem medo de nada.Nem de assalto,nem de ruas escuras e esburacadas,nem de não achar um lugar bacana sem precisar de carro e,principalmente,sem medo da solidão.
Curitiba é,sim,uma das cidades mais bonitas e talvez a mais romântica do Brasil.Foi lá que eu me apaixonei pela minhacompanhia.
